QUEIME ANTES DE LER.
Estou pensando em escrever um filme. E não é um filme qualquer. Vai começar em um boteco. Na calçada de um boteco. O bêbado abre o olho, vê que o dia está amanhecendo e diz: “Essa não... Mais um!”.
A tela fica escura. Entra o letreiro: “Baseado na vida real”. E depois entra meu nome. Porque estou precisando muito ficar famoso.
Volta pro dia amanhecendo. E não vai ter pássaros cantando. Nem macaco espreguiçando. Não quero enganar ninguém. Ficção eu deixo pro JJ Abrams que, aliás, é bem melhor que eu.
Crianças choram e vão para a escola obrigadas. Professores também. Em uma esquina, um caminhão descarrega jornal. E a manchete do jornal mais vendido do país – segundo ele mesmo – é categórica: “Precisa-se de doadores de bom senso. Urgente”.
Um corre-corre toma conta das ruas: cachorros correm atrás de carteiros, vizinhos correm atrás de vizinhos. Políticos correm atrás de pizza. Bandidos correm atrás de senhoras indefesas. E a polícia corre para a avenida Paulista. Está em greve. E ainda assim, nem todos os policiais correm. É que estão fora da boa forma.
Bebê chora por não querer nascer. Adultos choram porque querem morrer. E, por falar em morte, vai ser um filme sangrento. Cheio de mortes. E de todos os tipos: assassinato, suicídio, escorregão acidental em uma Glock apontada sem querer para a têmpora esquerda. E por aí vai. Mas não fica feliz não: o Sarney não morre.
Mas, para compensar, vai rolar uma passeata em forma de protesto contra sua quinta eleição para presidente do Senado. Dezessete pessoas compareceram. As outras 1.543.846 só curtiram pelo Facebook. Uma espécie de protesto virtual. E resultados idem.
Enquanto isso, o mundo vai de mal a pior. Congestionamento, caos aéreo, job pra ontem. Pessoas se empurram, acotovelam-se e brigam por uma vaga de deficiente físico. No meio da multidão, Eduardo se esbarra em Mônica e trocam de celular. Uma esquina depois, ela se dá conta do equívoco e joga o celular na primeira lixeira que encontra. Está ocupada demais para perder tempo com os gostos de um compositor: tem que pagar contas, ir ao supermercado, estudar para a prova, passar na casa da avó, pegar uma encomenda, comprar um desodorante e, se der tempo, ir à manicure. E voltar a tempo de ver o BBB 16. É dia de roleta russa e suicídio durante o discurso do Bial. Não pode perder.
Mas quem não perde mesmo é o presidente. Enquanto a população se mata ele dorme tranquilamente com os pés na mesa – bem em cima de um documento que valida o aumento do salário mínimo para R$563,42.
Pra deixar o filme um pouco mais alegre, entra um musical. A turma da Unidos do Morro Perdido quebra tudo. Até o carro alegórico dá uma emperradinha. O pessoal vai à loucura. Até a Sandy toma uma Devassa. Algumas velhinhas batem palminhas e não estão nem aí. Porque entre o bem e o mal existe o carnaval, e aí, meu amigo, dane-se tudo. Principalmente camisinha e princípios.
Cento e dez quilômetros habituais de congestionamento mais tarde, um ativista espertão foi de bike e morreu atropelado. E o deixaram lá, pra natureza tomar as medidas necessárias.
Corta para menores abandonados vendendo balas no semáforo. Tem de 22 e 38. Míssil de guerra exclusivo para o exército só sob encomenda. Demora dois dias para chegar. Mas o frete é grátis.
E, pra terminar, alguém descobre que não existem 125 razões para acreditar. Mas dorme com um sorriso inocente na cara: ao menos os bons são maioria. Pena que enquanto ele dorme a maioria muda de ideia e troca de lado.
No meio da noite, o presidente da República dá entrada no hospital, diz que está com diarreia e pede um atestado. Pra semana toda.
Fade out. E entra aquelas letrinhas que você nunca lê.