terça-feira, 27 de dezembro de 2011


CONTO DE FIM DE ANO.

Acordou tarde. E nem se importou. A mesa estava servida, mas só roubou um naco de pão. Cumprimentou todo mundo. Desejou feliz ano novo. Perguntaram por que não ia esperar o almoço. Respondeu que dessa vez ia variar. Mas e os fogos, o amigo secreto e a tradição da família? Respondeu com outra pergunta pra não se complicar. E depois saiu de fininho.
No caminho, passou na casa dos amigos, entregou presentes, esquivou de mais perguntas.
Pegou a estrada, aumentou o volume do rádio, diminuiu a velocidade. Os carros desciam a serra, ele subia. Todo mundo de branco. Menos ele.
Desligou o celular. Não fez check-in. Perdeu pontos no Foursquare, mas ganhou credibilidade com ele mesmo. Havia colocado em prática o que sempre quisera. Se fosse pra sair do comum, tinha que ser pra valer. Se fosse pra inovar, então tinha que ser de verdade.
Jantou na vila, dividiu mesa com desconhecidos, compartilhou novas ideias. Nem se lembrou de perguntar se tinham Twitter.
Um novo ano ia começar e ele não estava nem aí. Estava aberta a temporada de fazer mais do mesmo, mas dessa vez ele queria inovar. Tinha descoberto que se não mudasse, o ano não mudaria nunca. Tinha aprendido que a data não adianta nada quando param no tempo. E que ideias velhas, não fazem ano novo.  Foi aí que decidiu reciclar a si mesmo. Saiu do comum, abandonou o tradicional e, já que diziam que o mundo acabaria em 2012, decidiu fechar com chave de ouro.
Sonhou que tinha ganhado na loteria. E que o prêmio veio em bom senso pra todo mundo.
Lá fora, os fogos iluminavam as cidades. Pelo horário de Brasília, todos comemoravam a chegada de mais um ano velho.



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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011



HISTÓRIA REAL INVENTADA

Quer saber? Isso não faz o menor sentido! Tão me ouvindo? NÃO FAZ O MENOR SENTIDO! Estamos aqui já faz duas horas e olha só: está na senha 19. Tem mais umas 100 pessoas na fila! Ainda não repararam? Quem inventou essa droga de ordem sistemática? Filas, pra quê? Hein?! Pra quê? É o purgatório do que chamam de dias modernos. Eu que não caio mais nessa. Chega! Entenderam bem? CHEGA! A partir de hoje não sou mais uma vítima desse padrão majoritário de vida. E você aí, gordinho, para de me olhar com esses olhos arregalados. Aliás, e como vão essas olheiras? É pra isso que vivemos? Acordamos cedo, dormimos tarde, trabalhamos o dia todo e quando precisamos cair no sono, pronto, insônia! E depois ficamos aí, cochilando o dia todo, com essa cara de cueca velha no varal. E não disfarça não. Quem você pensa que é pra me evitar? Estamos na mesma fila, na mesma droga de fila, e você querendo me ignorar? Nós todos estamos sendo ignorados, não percebeu? Estamos sendo ignorados pelo sistema, pelos governantes e pelas mulheres bonitas.  Mas, não. Tem sempre um infeliz querendo se sobressair. E, por falar em sobressair, quero ver vocês saírem dessa. Quero ver até quando vocês vão aguentar essa vidinha manipulada, esse reizinho-mandou interminável e injusto. Hein?! Ninguém vai me responder? Estão proibidos de me responder? Ou estão incumbidos de não me enxergar? Malditos reprodutores de ordens mal fundamentadas e mesquinhas. Malditas ordens mal fundamentadas e mesquinhas. Malditas ordens! E porque esse burburinho? Não é isso o que vocês querem? Não são de filas, ordens e bundas doloridas que vocês gostam? Bater cartão às nove, mijar às onze, bater cartão ao meio dia, almoçar ao meio dia e dezesseis, bater cartão à uma, tomar um cafezinho com adoçante às duas, como se adoçante fizesse alguma diferença, lanchar às dezesseis, evitar repetir dezesseis três vezes em qualquer bendito parágrafo, bater cartão às dezoito, ser vítima do transporte público por mais umas três horas, assistir à droga da novela com o mesmo roteiro de sempre às vinte e uma, dormir às vinte e duas, perder o sono às vinte e três, dormir às quatro e acordar todo estropiado às sete como se tudo isso fosse normal? Hein?! É isso o que vocês querem? É pra isso que vocês vivem? É pra isso que vocês fingem que vivem? Hein?! Não vão me responder? Escravos do capitalismo! Respondem tanta pesquisa de consumo, de satisfação e de insatisfação e agora deram pra ficar mudos?! Mudos estão seus saldos bancários, que o gato comeu a língua e um político desgraçado levou a grana. Entenderam o trocadilho? Não?! Claro que não. E não era pra entender mesmo. Porque eu estou aqui pra confundir, mesmo sabendo que todos já nascemos confusos e que... Opa! Chamou o 74? Ei, peraí! Sou eu. Moça! Sou eu! Por favor, dá licença? Obrigado. Muito obrigado.




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quarta-feira, 29 de junho de 2011

QUEIME ANTES DE LER.

Estou pensando em escrever um filme. E não é um filme qualquer. Vai começar em um boteco. Na calçada de um boteco. O bêbado abre o olho, vê que o dia está amanhecendo e diz: “Essa não... Mais um!”.
A tela fica escura. Entra o letreiro: “Baseado na vida real”. E depois entra meu nome. Porque estou precisando muito ficar famoso.
Volta pro dia amanhecendo. E não vai ter pássaros cantando. Nem macaco espreguiçando. Não quero enganar ninguém. Ficção eu deixo pro JJ Abrams que, aliás, é bem melhor que eu.
Crianças choram e vão para a escola obrigadas. Professores também. Em uma esquina, um caminhão descarrega jornal. E a manchete do jornal mais vendido do país – segundo ele mesmo – é categórica: “Precisa-se de doadores de bom senso. Urgente”.
Um corre-corre toma conta das ruas: cachorros correm atrás de carteiros, vizinhos correm atrás de vizinhos. Políticos correm atrás de pizza. Bandidos correm atrás de senhoras indefesas. E a polícia corre para a avenida Paulista. Está em greve. E ainda assim, nem todos os policiais correm. É que estão fora da boa forma.
Bebê chora por não querer nascer. Adultos choram porque querem morrer. E, por falar em morte, vai ser um filme sangrento. Cheio de mortes. E de todos os tipos: assassinato, suicídio, escorregão acidental em uma Glock apontada sem querer para a têmpora esquerda. E por aí vai. Mas não fica feliz não: o Sarney não morre.
Mas, para compensar, vai rolar uma passeata em forma de protesto contra sua quinta eleição para presidente do Senado. Dezessete pessoas compareceram. As outras 1.543.846 só curtiram pelo Facebook. Uma espécie de protesto virtual. E resultados idem.
Enquanto isso, o mundo vai de mal a pior. Congestionamento, caos aéreo, job pra ontem. Pessoas se empurram, acotovelam-se e brigam por uma vaga de deficiente físico. No meio da multidão, Eduardo se esbarra em Mônica e trocam de celular. Uma esquina depois, ela se dá conta do equívoco e joga o celular na primeira lixeira que encontra. Está ocupada demais para perder tempo com os gostos de um compositor: tem que pagar contas, ir ao supermercado, estudar para a prova, passar na casa da avó, pegar uma encomenda, comprar um desodorante e, se der tempo, ir à manicure. E voltar a tempo de ver o BBB 16. É dia de roleta russa e suicídio durante o discurso do Bial. Não pode perder.
Mas quem não perde mesmo é o presidente. Enquanto a população se mata ele dorme tranquilamente com os pés na mesa – bem em cima de um documento que valida o aumento do salário mínimo para R$563,42.
Pra deixar o filme um pouco mais alegre, entra um musical. A turma da Unidos do Morro Perdido quebra tudo. Até o carro alegórico dá uma emperradinha. O pessoal vai à loucura. Até a Sandy toma uma Devassa. Algumas velhinhas batem palminhas e não estão nem aí. Porque entre o bem e o mal existe o carnaval, e aí, meu amigo, dane-se tudo. Principalmente camisinha e princípios.
Cento e dez quilômetros habituais de congestionamento mais tarde, um ativista espertão foi de bike e morreu atropelado. E o deixaram lá, pra natureza tomar as medidas necessárias.
Corta para menores abandonados vendendo balas no semáforo. Tem de 22 e 38. Míssil de guerra exclusivo para o exército só sob encomenda. Demora dois dias para chegar. Mas o frete é grátis.
E, pra terminar, alguém descobre que não existem 125 razões para acreditar. Mas dorme com um sorriso inocente na cara: ao menos os bons são maioria. Pena que enquanto ele dorme a maioria muda de ideia e troca de lado.
No meio da noite, o presidente da República dá entrada no hospital, diz que está com diarreia e pede um atestado. Pra semana toda.
Fade out. E entra aquelas letrinhas que você nunca lê.

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sexta-feira, 8 de abril de 2011

O que a manga tem a ver com a vida.


Não lembro quem tuítou, mas era mais ou menos assim: “O sujeito vai lá e cria um monte de fiapos numa fruta deliciosa como a manga. E tem gente que acha Ele o máximo”. Achei curioso. Tanto é que virou post.


Mas e se manga não tivesse fiapos? E se melancia não tivesse caroços? E se as frutas já viessem maduras?
E se não fosse necessário esperar? E se não houvesse filas? Nem demora? Nem derrota?
E se não existissem tantas coisas aparentemente desnecessárias? E se, simplesmente, a vida fosse fácil?
E se ela, a vida, viesse desembrulhada, fatiada, assada e pronta para ser degustada?
Será que teria graça? E faria sentido?
O que seria dos desafios? E as aventuras? Em quê daríamos valor?
Arriscaríamos para chegar onde? Para ganhar o quê? Hein?
Os fiapos servem para dar mais valor a manga. As filas, para nos ensinar que com calma também chegamos lá. E que quem chega por último, ri por último. E nem sempre ri melhor.
As derrotas e os imprevistos acontecem para nos deixar alertas e cientes de que antes do apito o jogo nunca está ganho. Nem perdido. E, se perdermos, sempre teremos outra oportunidade. E de virada, claro, é muito mais gostoso.
E a vida nunca será fácil. Não se ganha sem entrar em campo. Sem suar a camisa. Não se vive se não houver dedicação, esperança e a certeza de que, por mais difícil que seja, basta vivermos da melhor maneira possível. O resto a gente vai arrancando devagarzinho. Porque vale a pena.
Igual aos fiapos da manga.


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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

CONFIDENCIAL.

Recebi o depoimento a seguir. E virou post. Merecidamente

“Olá, Misael.
Hoje participo de mais uma formatura nessa minha caminhada na EDUCAÇÂO. Sinto que dou passos mais trôpegos e, para continuar, lembro dos meus alunos especiais que quanto mais sabiam, mais queriam saber.
VOCÊ é inesquecível: aquele menino (quinta série) tímido, um sorriso lindo, perspicaz e com objetivos tornou-se um homem FELIZ!
Agradeço-lhe muito pelos passos que demos juntos na minha caminhada. O percurso foi pequeno, a qualidade foi enorme!”
(Ieda Oliveira Ribeiro, 16 de dezembro de 2010)

O percurso foi pequeno. A qualidade foi enorme.
Eu era apenas um menino da quinta série do ensino fundamental. Tímido, mas bastante curioso. Simples, mas que já sonhava em ir bem longe. E que adorava as segundas-feiras.
Era nas segundas-feiras que eu tinha duas aulas de história. E as aulas da professora Ieda, além de ótimas, tinham algo que nenhuma outra tinha. Que nenhuma outra teve.
Toda semana ela me levava dois ou três livros de sua biblioteca particular. Ah! Quanta saudade! Eu não via a hora de chegar em casa e me aventurar pelas tramas da Agatha Christie. Ou me deliciar nos paraísos criados pelo Sidney Sheldon. Isso sem falar nos sempre bem escritos suspenses do Georges Simenon, do Edgar Wallace e de tantos outros que ela fez questão de me apresentar.
O tempo passava rápido demais e as páginas, por mais que fossem, pareciam poucas. Podiam ser mais! Podia ser diferente aqui e ali... E quando eu via, já estava criando. Escrevendo minha própria versão não autorizada. Mudando o fim, arrumando o começo. Fazendo a história do meu jeito.
E logo já era segunda de novo. Era hora de trocar os livros. Tinham novos romances me esperando, novas aventuras prontas para eu embarcar. E a vida era tão boa. E tudo era tão simples. Bastava jogar a mochila na cama, tirar o tênis e pronto! Tudo era perfeito. E acabava sempre bem.
Mas os tempos, minha querida professora, passaram. Eu cresci. E tudo virou de verdade. As responsabilidades vieram aos montes. A vida bateu na minha cara, colocou-me de pé e, sem me mostrar o caminho, me fez seguir em frente. Ah! E eu não sou mais tão tímido, mas continuo com muita vergonha. Vergonha alheia desse mundão que só piora.
E as segundas-feiras, professora, não são mais as mesmas. Agora eu vou para outra escola. Onde não tem reforço. Onde não tem ajuda. Onde não tem gente como a senhora para me dar a mão.
É tão difícil. E tão arriscado. Mas eu não tenho medo. Carrego comigo a criatividade que você me proporcionou aprender, a classe que você sempre teve e o seu jeito educado que sempre admirei. E isso tem feito a diferença. Tenho alcançado coisas que jamais imaginei. E meu sonho de ir bem longe está cada vez mais próximo. Até parece uma daquelas histórias.

Apesar da saudade, não quero voltar. Mais do que nunca eu quero é seguir em frente, vencer ainda mais e provar que você fez a diferença.
Obrigado, professora! Obrigado por me ensinar tantas histórias e por me ajudar a construir a minha.
Eu sempre vou te dever essa.


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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

FILOSOFIA DE BOTEQUIM #02

Não há dúvida. Já foi comprovado por acontecimentos e acidentes. Todos já testaram, por bem ou por mal. Não há nem o que discutir. Já vem carimbado, rotulado e escrito bem grande: A VIDA É FEITA DE ESCOLHAS.
Para os insistentes, ignorantes e simpatizantes é bom que fique claro: não tem volta, é assim e ponto. Não podemos mudar. Aliás, esse é um dos pontos que ninguém tem outra opção. É um dos pontos que não há escolha. O outro é a morte. Simples, né não?
Esperto que sou, fui logo fazendo as minhas. Confesso que errei várias vezes, mas me orgulho de ter acertado em muitas outras.
Num mundo em que as pessoas não se importam com o próximo, eu acertei em escolher fazer o bem e em não negar, nunca, ajuda. Quando eu precisei, a vida tratou de providenciar pessoas com as mesmas intenções.
Escolhi não me entregar ao óbvio, não aceitar o pronto e duvidar da teoria. Ousei. Dei a cara a tapas. E no fim, não mudei o mundo. Nem a minha rua. Mas fiz a diferença. E isso me abriu portas.
Quando fiquei doente, não me fiz de vítima. Não fiz da doença, mesmo que incurável, uma limitação, uma desculpa. Escolhi fazer dela uma alavanca. Escolhi fazer dela o motivo real de viver plenamente. Escolhi deixar o futuro pra depois e viver cada dia da melhor maneira possível. E essa escolha tem sido a minha cura.
Lidei com pessoas infelizes e pessimistas. Mas escolhi não ser igual a elas. Não as mudei, mas não deixei que me mudassem. E isso já é uma enorme conquista.
Escolhi as boas companhias. E foi assim que eu aprendi muito. Foi daí que tirei muitos exemplos que tento seguir.
Errei ao falar o certo na hora errada. Ao pensar, algumas vezes, em desistir. Errei, também, quando não dei ouvidos ao meu médico. Isso me rendeu uma baita gastrite.
Gastei muito dinheiro com escolhas desnecessárias. Mas só assim pude descobrir quais escolhas são, de fato, necessárias.
Errei. Aprendi. Perdi. Ganhei. Vivi. E sei que ainda me resta muito chão pela frente. Mas a vida me ensinou que não existem 10 maneiras para ser feliz, nem sete hábitos para alcançar o sucesso. Não existem regras nem segredo para ficar rico. Não existe manual para viver.
Existem apenas escolhas.

sábado, 1 de janeiro de 2011

MICROCONTOS #09

Cena da família reunida almoçando.
Eu entro correndo e grito: Feliz ano novo!
Todos comemoram. Felizes e esperançosos.

Corta. Entra packshot.

sábado, 13 de novembro de 2010

MICROCONTOS #08

Respiro.
Transpiro.
Me inspiro.
E faço poesia.
Mas nem sempre rimo.

MICROCONTOS #07

O que não mata ensina a viver.
Basta manter a fé, a cabeça erguida
e a vontade de vencer.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

MICROCONTOS #06

Nenhum dia amanhece só.
Com cada um deles vem uma nova oportunidade.
Basta por a mão na massa. Tirar o pó.
E acreditar. De verdade.